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Grande Recife bate recorde de vítimas de bala perdida e de crianças e adolescentes baleados, diz Instituto Fogo Cruzado

Imagem de arquivo mostra viaturas da Polícia Civil de Pernambuco em operação Reprodução/SDS Em 2025, o Grande Recife registrou dois recordes históricos re...

Grande Recife bate recorde de vítimas de bala perdida e de crianças e adolescentes baleados, diz Instituto Fogo Cruzado
Grande Recife bate recorde de vítimas de bala perdida e de crianças e adolescentes baleados, diz Instituto Fogo Cruzado (Foto: Reprodução)

Imagem de arquivo mostra viaturas da Polícia Civil de Pernambuco em operação Reprodução/SDS Em 2025, o Grande Recife registrou dois recordes históricos relacionados à violência armada: em número de vítimas de balas perdidas e na quantidade de crianças e adolescentes baleados. A conclusão é do relatório anual do Instituto Fogo Cruzado, divulgado nesta quinta-feira (26). Segundo o levantamento, o período também foi marcado por uma alta expressiva nos tiroteios por disputas entre grupos armados na Região Metropolitana. Foram 46 ocorrências, um aumento de 650% em relação ao ano anterior. Para a instituição, os dados revelam o agravamento da violência armada contra crianças e adolescentes na localidade. ✅ Receba as notícias do g1 PE no WhatsApp Entre as crianças e os adolescentes baleados, o cenário de violência pouco mudou nos últimos dois anos. Enquanto, em 2024, 147 menores de idade foram baleados, em 2025 o número subiu para 148, o maior já registrado desde o início do monitoramento em 2019. Dos 148 baleados, 16 são crianças de até 11 anos e quatro delas morreram. Entre adolescentes de 12 a 17 anos, 132 foram atingidos por disparos de arma de fogo. Desses, 93 morreram e 39 ficaram feridos. Veja os vídeos que estão em alta no g1 De acordo com Ana Maria Franca, coordenadora do Instituto Fogo Cruzado em Pernambuco, os números não são uma novidade. "Quando a gente está falando, principalmente de adolescentes, esse dado não é novo para a gente. Adolescentes sempre foram vitimizados desde que a gente passa a fazer o monitoramento aqui. O que acontece em 2025 é que a gente tem um número maior de crianças aliadas a esse somatório e isso resulta num recorde na nossa série histórica", detalha. A diferença principal está na alta de crianças atingidas, que também alcançou o maior registro da série histórica com 16 pessoas. Segundo Ana Maria Franca, as crianças geralmente são vítimas colaterais da violência. "Elas são, na maioria das vezes, vitimizadas porque estavam numa situação de conflito, mas, quando a gente fala de adolescência, a gente está falando de uma violência muito mais intencional. Então, a gente percebe que os adolescentes geralmente estão baleados em situações de homicídio e tentativa", contou. Confira os números da série histórica do Instituto Fogo Cruzado: 2025: 148 crianças e adolescentes baleados — 132 adolescentes e 16 crianças 2024: 147 crianças e adolescentes baleados — 141 adolescentes e 6 crianças 2023: 118 crianças e adolescentes baleados — 109 adolescentes e 9 crianças 2022: 131 crianças e adolescentes baleados — 118 adolescentes e 13 crianças 2021: 116 crianças e adolescentes baleados — 108 adolescentes e 8 crianças 2020: 104 crianças e adolescentes baleados — 93 adolescentes e 11 crianças 2019: 119 crianças e adolescentes baleados — 109 adolescentes e 10 crianças Transparência pública O levantamento aponta também que 96% dos adolescentes baleados foram vítimas de homicídios, em ataques diretos e intencionais. Entre abril de 2018 e dezembro de 2025, o Grande Recife registrou 902 jovens de 12 a 17 anos baleados. Desse total, 42% das ocorrências aconteceram nos últimos quatro anos. Ana destaca que os números evidenciam não apenas a gravidade da violência letal contra adolescentes, mas também a fragilidade das políticas de prevenção e da transparência das informações. "A gente vive em um contexto em que há pouca transparência na segurança pública. A gente vê muitos investimentos no campo da repressão, então equipamentos, equipamentos bélicos, inclusive, que é o que o governo do estado apresenta como ganho na segurança pública. Mas isso não aparece para a gente a partir da transparência de quais ações efetivas que estão sendo aplicadas para poder reduzir esse número", diz. Apesar do cenário de violência acentuada em torno das crianças e adolescentes, Pernambuco registrou o segundo menor número geral de tiroteios da série histórica. Foram 1.483 ocorrências em 2025, resultando na morte de 1.233 pessoas e deixando outras 485 feridas. A queda foi de 15% em relação a 2024. Para Ana, mesmo com a diminuição nos dados gerais, não há uma percepção real de melhora na segurança, já que outros indicadores continuam apontando agravamento da violência em determinados grupos e contextos. "A gente sempre chama a atenção de que, apesar da queda no número de tiroteios, quando a gente olha para indicadores específicos, como, por exemplo, o de crianças e adolescentes, a gente percebe que teve um aumento. Quando a gente olha as vítimas de bala perdida, de tiroteios motivados por disputa... Então, são situações que vão mostrando para a gente que não existe um aumento na sensação de segurança. A gente só tem uma queda nos números, mas isso não se verifica na no cotidiano das pessoas", explica. Balas perdidas Um dos pontos de atenção do estudo é a alta no número de pessoas atingidas por balas perdidas, que atingiu recorde na série histórica. Segundo o Fogo Cruzado, ao menos 72 pessoas foram vítimas. Desse total, oito morreram e 64 ficaram feridas. O número representa um aumento de 47% em relação a 2024. O pico foi registrado em março, quando 17 pessoas foram atingidas. Um dos episódios aconteceu durante um show João Gomes no carnaval de Olinda, onde sete pessoas foram atingidas, na Praça do Carmo, principal foco de folia da cidade. Durante 2025, 1.718 pessoas foram baleadas no Grande Recife, uma média de cinco pessoas baleadas por dia. Do total, 1.233 morreram e 485 ficaram feridas. Os números representam uma queda de 14% no número de mortos e queda de 7% na quantidade de feridos em comparação com 2024. No entanto, por mais um ano, a Região Metropolitana do Recife manteve o número de pessoas baleadas superior ao número de tiroteios, o que aponta um padrão de múltiplas vítimas por conflito armado. Em relação às ações policiais, foram registradas altas tanto em relação ao número de tiroteios, quanto ao total de baleados. Em 2024, foram 68 tiroteios e, em 2025, 87. De baleados, foram 74, em 2024, e 84 em 2025. Disputa territorial Outro dado apresentado no relatório é o crescimento das disputas territoriais entre grupos armados. Em 2025, o Fogo Cruzado registrou 46 tiroteios motivados por disputas entre grupos no Grande Recife, um aumento de 650% em relação ao ano anterior. Segundo a coordenadora, os dados evidenciam que o fenômeno deixou de ser pontual e passou a se espalhar por diferentes áreas do território metropolitano no conflito armado. "A expansão dos grupos armados (...) que dominam esse mercado, e isso já está dado no Brasil inteiro, então não é uma especificidade daqui de Pernambuco. Em alguns lugares, isso tem aparecido de forma mais explícita, como a Bahia, uma presença mais intensa desses grupos. A gente supõe que esteja acontecendo aqui também, porque há relatos (...) que chegam para a gente também. A expansão do crime organizado está colocada como um problema de segurança pública nacional e deve ser tratada nacionalmente também", disse. Outros dados O levantamento do Fogo Cruzado é elaborado a partir da chamada "produção cidadã de dados", reunindo informações coletadas pela sociedade civil com base no monitoramento da imprensa, das redes sociais e em relatos de pessoas que vivenciam situações de violência armada. Cada ocorrência passa por um processo de checagem antes de ser confirmada e incorporada ao relatório. No Grande Recife, a capital liderou o número de registros em 2025, concentrando 38% dos tiroteios mapeados. Ao todo, foram 561 casos registrados. Na sequência aparecem Jaboatão dos Guararapes, com 228 ocorrências; Cabo de Santo Agostinho, com 146; Olinda, com 123; e Paulista, que registrou 95 tiroteios no período. Entre os bairros da Região Metropolitana do Recife analisados pelo Instituto Fogo Cruzado, Muribeca e Dois Unidos lideraram em número de pessoas baleadas, com 35 casos cada um. Em seguida, estão Nova Descoberta (33), Prazeres (31) e Ponte dos Carvalhos (25). Também aparecem com 25 registros os bairros de Cohab e Água Fria. O relatório aponta, ainda, que, em 2025, ao menos 15 agentes de segurança foram baleados na Região Metropolitana do Recife. Do total, oito foram atingidos enquanto estavam fora de serviço, quatro foram feridos durante o exercício da função e três dos baleados já eram aposentados ou haviam sido exonerados do cargo. VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias

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